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Religiosidade e Cultura

Desde que o mundo é mundo, a religiosidade faz parte da rotina de todos os povos, das mais variadas culturas, porque a humanidade sempre buscou o sentido da vida e tentou entender o que acontece com a espécie após a morte. Por maiores que sejam as diferenças, uma regra é básica: qualquer religião visa conduzir os seus fiéis à prática do bem, trazendo junto os fundamentos do amor e o exercício da solidariedade.

 

O Brasil é uma nação laica, ou seja, não adota uma religião oficial. A própria constituição federal confere aos brasileiros o direito de escolher a sua fé ou até mesmo optar por não ter fé alguma. Habitamos um território plural, com católicos, muçulmanos, protestantes, umbandistas, judeus, espíritas, budistas, candomblecistas, evangélicos, taoístas e messiânicos, entre outras denominações, convivendo pacificamente. Mas será que ainda há quem associe certas religiões a pessoas de determinados tipos físicos ou a uma cidade específica do país?

 

Foi o que descobrimos ao pedir que vinte pessoas espetassem alfinetes no mapa, indicando em qual estado brasileiro havia um maior número de fiéis das religiões afro-brasileiras. O jogo incluía responder onde moravam mais pessoas que se assumiam negras. Ganha uma fitinha colorida do Bonfim quem responder que a Bahia foi eleita pelo júri popular nos dois casos. Um senhor lembrou muito bem que lá “fica o berço da civilização negra do Brasil”. Além de indicar a região como o lugar onde aportaram muitos navios negreiros, uma senhora justificou o orgulho dos baianos de serem negros: “Quando conhece a sua origem você não tem vergonha do que é”.

 

Apesar dos dois entrevistados terem razão, os resultados apurados pelo Censo Demográfico nos surpreenderam. O Rio Grande do Sul é a região com maior concentração de adeptos declarados das religiões afro-brasileira, com 1,63% da população. Apesar de conhecida por seus terreiros seculares e mães de santo famosas, a Bahia ficou em 13º lugar, com apenas 0,09%. Em contrapartida, 75% dos cidadãos baianos se declararam negros contra 13% dos gaúchos. Impressionado com as estatísticas?

 

Pois é. Quase metade da população é afro-descendente e apenas 0,34% dos brasileiros professam as religiões afro-brasileiras, o que significa que nem todos os negros cultuam as entidades do Candomblé e da Umbanda. Mais do que isso. Basta dar uma espiada nas casas-de-santo para perceber que há muitos brancos seguindo estas religiões, alvos freqüentes de intolerância e preconceito. Para os adeptos do Cristianismo, por exemplo, elas nem são consideradas religiões, mas seitas.

 

“Pela lei toda e qualquer organização que se autodenomine uma associação religiosa é uma religião. Para o Direito, não existe a noção de autêntica ou falsa. Todas elas devem receber o mesmo grau de respeito, embora saibamos que, na prática, não vigore esta igualdade”, define o advogado Hédio Silva Júnior, doutor em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Nos últimos anos, no entanto, nenhuma religião obteve tantas vitórias nos tribunais como aquelas de matriz africana”, diz.

 

E embora as religiões acumulem na sua essência valores como bondade e amor ao próximo, diversas crenças foram açoitadas pela sociedade. Vamos aos fatos: na época do Império Romano, os cristãos eram atirados aos leões. Entre os séculos XIII e XVIII, a Inquisição perseguia protestantes, judeus e muçulmanos. Já no século XX, os regimes fascistas e nazistas condenaram à morte cerca de 6 milhões de judeus. E em pleno século XXI, ainda testemunhamos, perplexos, cenas de guerras de cunho religioso. Sobram exemplos em todas as civilizações de que o homem, usando em vão o nome de Deus, ainda vitima seus semelhantes. Como podemos agir para interromper este rastro sangrento da história?

 

Para saber mais

 

Mitologia dos Orixás
Reginaldo Prandi
Companhia das Letras, 2000

 

Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana
Nei Lopes
Summus / Selo Negro, 2004

 

Lendas africanas dos orixás
Pierre Verger e Carybé
Corrupio, 1987

 

O candomblé da Bahia
Roger Bastide
Companhia das Letras, 2001

 

Religiões negras - negros bantos
Edison Carneiro
Civilização Brasileira, 1991

 

Batuque, samba e macumba – Estudos do gesto e do ritmo [1926 – 1934]
Cecília Meireles
Martins Fontes, 2003

 

Dicionário de Arte Sacra e Técnicas afro-brasileiras
Raul Lody
Pallas, 2003

 

A busca da África no candomblé – Tradição e poder no Brasil
Stefania Capone
Pallas e Contracapa, 2004

 

Todos os santos são bem-vindos
Monique Augras
Pallas, 2005

 

O negro no futebol brasileiro
Mário Filho
Faperj e Mauad, 2003

 

O reino dos mestres – A tradição da Jurema na umbanda nordestina
Luiz Assunção
Pallas, 2006-04-25

 

Iemanjá – A grande mãe africana do Brasil
Armando Vallado
Pallas, 2002

 

Iniciação de muzenza nos cultos bantos
Ornato J. Silva
Pallas, 1998

 

Caminhos de Odu
Agenor Miranda Rocha
Pallas, 1998

 

Igbadu – A cabaça da existência – Mitos nagôs revelados
Adilson de Oxalá
Pallas, 1998

 

666 Ebós de Odu – Para todos os fins
Adilson de Oxalá
Pallas, 2005

 

O banquete do Rei - Olubajé - à música sacra afro-brasileira
José Flávio Pessoa de Barros
Pallas, 2005

 

A fogueira de Xangô, o orixá do fogo – Uma introdução à música sacra afro-brasileira
José Flávio Pessoa de Barros
Pallas, 2005

 

Ewé Órisá
José Flávio Pessoa de Barros e Eduardo Napoleão
Bertrand Brasil, 1998

 

Lendas da Criação – A saga dos Orixás
Rubens Saraceni
Madras, 2005