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Material Didático

Quando esbarramos com as pessoas pelas ruas da cidade, não conseguimos descobrir onde elas moram, com o que trabalham, nem o quanto ganham. Mesmo assim, é comum que julguemos os outros pela aparência, ou seja, pelas roupas que vestem, o penteado dos cabelos, os objetos que carregam e pela cor da pele. Será que estes traços são suficientes para identificar moradia, profissão ou situação financeira de alguém?

 

Como o que nos interessa apurar no momento é o preconceito racial, inventamos um jogo para descobrir até que ponto a cor da pele de uma pessoa influencia, de fato, no julgamento que se faz pela aparência. Os vinte entrevistados, escolhidos aleatoriamente, relacionaram as fotografias de duas famílias, uma negra e outra branca, à habitação e ao local de trabalho do chefe de cada uma delas. Quer ver o resultado?

 

Um senhor negro foi o primeiro a apontar a família negra como moradora da casa mais humilde. Uma moça loura garantiu que qualquer um daquelas fotos poderia trabalhar no consultório médico. Já a jovem branca classifica a família negra com o aspecto mais feliz. Depois de um rapaz negro reclamar que a sociedade branca não oferece oportunidades aos afro-descendentes, um homem branco liga os negros à casa mal acabada, afirmando que fez esta associação motivado pela cor da pele de seus membros.

 

É lamentável, mas as pessoas vinculam mesmo os negros aos trabalhos braçais e às piores condições de moradia. Todos os dias nos deparamos com peças publicitárias, cenas de filmes e de novelas, personagens na literatura e nas histórias em quadrinhos que superestimam os brancos e subestimam os negros. Aos poucos, notamos um crescimento de exemplos positivos no negro na mídia, mas estas iniciativas, embora válidas, ainda são minoria. A atriz Zezé Motta, por exemplo, foi protagonista do filme ‘Xica da Silva’, dirigido por Cacá Diegues em 1976, e é hoje uma das figuras mais importantes da dramaturgia brasileira.

 

Zezé Motta vasculha suas mais remotas lembranças antes de afirmar que o negro é totalmente invisível no material escolar. “Não tenho lembrança de aprender sobre heróis ou celebridades negras na sala de aula, mas sempre encarei isso com naturalidade”, conta. E é verdade. Os negros sempre aparecem desempenhando funções subalternas, atividades exclusivamente manuais, em situações de penúria ou dignas de piedade na maioria dos livros didáticos e para-didáticos.

 

De acordo com Sueli Gonçalves, secretária de educação de Campinas, “nos livros de história, o negro costuma aparecer amarrado no tronco, recebendo o açoite. E se você tiver um olhar mais atento, aquele personagem negro aparenta ser pacífico, não sente dor e está ali numa boa”. Triste imagem, não? Por isso, é preciso bater incansavelmente nesta tecla: A escola tem um importante papel no combate à discriminação racial, a começar pela escolha do livros utilizados no decorrer do ano letivo.


 

Há muitos anos que a sociedade, principalmente através do movimento negro, vêm chamando atenção para os problemas educacionais que os negros enfrentam. Analfabetismo, evasão e baixa escolaridade são alguns dos mais graves. E as causas? Alguém já parou para estudar um meio de alterá-las? Pelo menos três motivos são lembrados: O acesso precário a uma educação pública de qualidade, a inexistência de políticas públicas de manutenção desses alunos em sala de aula e ao conteúdo – tanto do currículo quanto dos livros didáticos, que ora excluem ora reduzem a participação do negro na própria sociedade brasileira.

 

Sobre a Lei 10.639 , altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, e torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nas grades curriculares dos ciclos fundamental e médio ministrados nas redes públicas e privadas do país, Sueli Gonçalves é enfática: “A lei pela lei não muda nada. O governo, em todas as esferas, precisa instrumentar os professores em especial das disciplinas história, geografia, português e educação artística”, avalia.

 

Para saber mais

 

A África em sala de aula – Visita à história contemporânea
Leila Leite Hernandez
Selo Negro, 2005

 

Menina bonita com laço de fita
Ana Maria Machado
Ática, 2000

 

O pensamento negro em educação no Brasil - Expressões do movimento negro
Lúcia Barbosa e Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (Org.)
Editora da Universidade Federal de São Carlos, 1997

 

Racismo e anti-racismo na educação - repensando a nossa escola.
Eliane Cavalleiro (Org.)
Summus / Selo Negro, 2001

 

 

Superando o racismo na escola
Kabengele Munanga (Org.)
Ministério da Educação / Secretaria de Educação Fundamental, 2001

 

 

Discriminação racial nas escolas: Entre a lei e as práticas sociais
Hédio Silva Júnior
Unesco, 2002

 

Amkoullel, o menino fula
Amadou Hampâté Ba
Casa das Áfricas e Palas Athena, 2003

 

Sikulume e outros contos africanos
Adaptado por Júlio Emílio Braz
Pallas, 2005

 

Contos negros da Bahia e contos de nagô
Deoscoredes M. dos Santos [Mestre Didi]
Corrupio, 2003

 

História do Preto
Heloísa Pires Lima
Companhia das Letrinhas, 1997