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África no currículo escolar

O Brasil é habitado por cerca de 76 milhões de negros e pardos, o equivalente a 45% da população. Portanto, os negros não podem ser considerados uma minoria num país que só perde para a Nigéria em quantidade de afro-descendentes no mundo. O curioso é saber que mesmo com toda a riqueza cultural, histórica e econômica que nós, brasileiros, herdamos da África, ainda conhecemos muito pouco sobre o continente, onde vivem mais de 780 milhões de pessoas das mais variadas etnias.

 

Não é de hoje que os livros escolares e as notícias da imprensa apresentam uma África estereotipada. Para ilustrar que imagem é essa, elaboramos um jogo bem interessante. Dez pessoas foram convidadas a classificar a região a partir de alternativas. Você acha que elas vêem a África como sinônimo de desenvolvimento ou atraso? Saúde ou doença? Riqueza ou pobreza? Estabilidade ou instabilidade política? Tribo ou civilização?

 

Para um senhor com sotaque português, a África tem riquezas, sim, mas são mal distribuídas. Uma jovem menciona a Aids como um dos fatores que a levam a afirmar que o continente africano é associado à doença. Outra entrevistada justifica a escolha de instabilidade política ao lembrar das guerras que assolam o continente. Um depoimento, em especial, se destaca. É a fala de uma moça que aponta todas as opções desfavoráveis e explica o motivo: “Escolhi os aspectos negativos porque é o que a televisão mostra”.

 

Claro que o continente africano enfrenta problemas muito graves, como estes indicados pelas pessoas que participaram do jogo, no entanto, não se pode negar que só temos acesso a alguns aspectos da realidade daquele país. A história da África reserva bons capítulos que os livros didáticos não contam. Para início de conversa, foi lá que surgiu o homo sapiens há cerca de 130 mil anos. Pesquisam indicam que os primeiros indivíduos da espécie humana eram negros, pequenos e com feições muito semelhantes às do africano de hoje.

 

A magistral civilização egípcia, notória pelos seus avançados conhecimentos em engenharia, geometria e matemática, é outro exemplo da contribuição da África para a humanidade. E mesmo sendo uma referência esplêndida daquela cultura ímpar, os livros costumam omitir que o Egito fica no continente africano. Quando desconhecemos todo o valor dos africanos reforçamos um sentimento de inferioridade nos afro-descendentes dos quatro cantos da terra. Tanto os negros quanto os brancos saem perdendo. Os brancos, sobretudo, porque são criados com a falsa ilusão de serem membros de uma raça superior.

 

A desinformação tem origem quando folheamos o livro didático, na sala de aula. Os capítulos dedicados à história da África são simbólicos e sempre relacionados ao tema ‘escravidão’. E mesmo a escravidão é abordada sob uma perspectiva eurocêntrica, isto é, do ponto de vista do colonizador, que ignora um item elementar: a diversidade étnica daquele povo. Ninguém explica que os escravos do Brasil possuíam as mais diversas origens, dialetos, valores, crenças e hábitos. Pelo contrário, eles sempre são rotulados como uma coisa só: negros africanos, serviçais dos brancos.

 

De acordo com o antropólogo Kabengele Munanga, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e vice-diretor do Centro de Estudos Africanos da mesma instituição, “nossos livros didáticos têm uma orientação que não contempla as raízes africanas do Brasil, influenciando negativamente na formação da auto-estima dos jovens brasileiros de ascendência africana. Para qualquer pessoa se afirmar como ser humano ela tem que conhecer um pouco da sua identidade, das suas origens, da sua história”.

 

Com a implementação da lei 10.639, grande parte destas questões serão resolvidas. A lei torna obrigatório o ensino sobre a história e a cultura afro-brasileiras nas escolas do país inteiro. Além de entender acerca do Império Romano, do feudalismo na Europa, da Revolução Industrial na Inglaterra, da Revolução Francesa e da Guerra Civil norte-americana, os alunos serão informados, desde muito cedo, a respeito da África como um continente vivo e enriquecedor.

 

Para saber mais

 

Antologia do Negro Brasileiro
Edison Carneiro
Agir, 2005

 

 

Kitabu – O livro do saber e do espírito negro-africano
Nei Lopes
Senac Rio, 2005

 

 

Em costas negras – Uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro
Manolo Florentino
Companhia das Letras, 1997

 

 

Os libertos: sete caminhos na liberdade de escravos na Bahia do século XIX
Pierre Verger
Corrupio, 1992

 

A partilha da África Negra
Henri Brunschwig
Perspectiva, 2004

 

 

Compreender África – Teorias e práticas de gestão
Rui Moreira de Carvalho
FGV, 2005

 

A manilha e o libambo – A África e a escravidão de 1500 a 1700
Alberto da Costa e Silva
Nova Fronteira, 2002

 

Reis negros no Brasil escravagista – História da festa de coroação de Rei Congo
Marina de Mello e Souza
Editora UFMG, 2002

 

Ancestrais – Uma introdução à história da África Atlântica
Mary Del Priore e Renato Pinto Venâncio
Campus, 2004

 

Fluxo e refluxo – Do tráfico de escravos entre o golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos – do século XVIII e XIX
Pierre Verger
Corrupio, 2002

 

A escravidão na África – Uma história de suas transformações
Paul E. Lovejoy
Civilização Brasileira, 2002

 

Casa-Grande & Senzala
Gilberto Freyre
Global Editora, 2005, edição comemorativa

 

A África e os africanos na formação do mundo atlântico [1400 – 1800]
John Thornton
Campus e Elsivier, 2004