Quilombos

Ogum é um deus guerreiro, protetor de todos aqueles que sofrem discriminações, perseguições e injustiças. O deus da guerra inspira coragem e luta pela dignidade. E foi manifestando o que há de divino no homem que muitos negros construíram a história de resistência e do sonho de liberdade que sustentou quilombos e serviu de base para muitas rebeliões. Ganga Zumba, Zumbi e Preto Cosme foram alguns que escreveram essa história, presente ainda hoje na memória e também na atual resistência de remanescentes quilombolas. Entenda um pouco mais no programa ‘Quilombos’, penúltimo da série ‘Mojubá’.


Segundo o Dicio
nário Aurélio Buarque de Holanda, ‘quilombo’ é uma palavra de origem kimbundo, que quer dizer ‘recinto murado, campo de guerra, povoação, associação guerreira’. Pode significar também ‘esconderijo, aldeia, cidade ou conjunto de povoação em que se abrigavam escravos fugidos’. Porém, nem todos os sentidos possíveis de uma palavra aparecem nos verbetes.

Joel Rufino - escritor
“Vamos começar pela origem do termo quilombo. Começa na África, ao norte de Angola e serve para designar ‘acampamento dos guerreiros’. No Brasil, essa palavra começou a ser usada para se referir a ‘ajuntamento de negros fugidos’. E como tal existiu durante o tempo de escravidão que assolou toda a América. Trocando em miúdos, a história da escravidão é separada da história da luta contra a escravidão. Nunca houve escravidão pacífica”.

Para os escravos do Brasil Colônia, quilombo era um lugar onde o negro podia viver longe do açoite, do tronco e da tortura. Era também um lugar reservado ao trabalho coletivo na agricultura, cuja organização social era semelhante à existente na África. No entanto, este modo de vida alternativo à sociedade colonial escravista só era viável através da fuga.

Joel Rufino - escritor
“O próprio ato de fugir gera um prejuízo ao senhor, já é um ato de sabotagem do trabalho escravo. E o quilombo se torna no Brasil, por exemplo, a partir do século XVII, com a criação do Quilombo dos Palmares, uma questão de segurança nacional. Quando cresceram um pouco, os quilombos viraram sociedades alternativas, com outro tipo de produção, de exercício do poder político e, obviamente, também outra cultura, outra maneira de usar a língua. Então, o quilombo não é apenas um ajuntamento de escravos fugitivos, mas a alternativa concreta à sociedade escravista”.

Júlio Tavares – antropólogo
“Não havia somente africanos escravizados que conseguiram fugir das fazendas e se alojar nos quilombos, isolados do mundo. Não! Eles trocavam com as cidades, inclusive mercadorias. O quilombo era uma espécie de experiência intercultural, mas também multilinguística. Era, mais do que um exemplo de resistência, uma referência sócio-política muito importante para o fortalecimento da auto-estima dos descendentes de africanos. A partir dos quilombos eles enxergaram que eram capazes de organizar uma sociedade, não apenas uma escola de samba”.

Valdina Oliveira Pinto – pesquisadora baiana
“Acredito que foi na situação de quilombola que eles começaram a recriar a cultura e a religião africanas porque foi aí que eles tiveram a oportunidade de ser novamente o que eram na África”.

Os quilombos se espalharam por vários endereços brasileiros: Bahia, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.


Joel Rufino – esc
ritor
“Quem organizou Palmares foi Ganga Zumba. Então, o mérito histórico de organizador é dele. Quando Zumbi chega para assumir o comando, Palmares já era um estado. Ganga Zumba também é conhecido pelo conflito que travou com Zumbi. Os dois chefes se desentenderam a propósito do desmanche de Palmares. Ganga Zumba fez um acordo com o governador de Pernambuco que não foi aceito pelo jovem Zumbi”.

Na ocasião, Ganga Zumba foi assassinado por envenenamento e Zumbi esteve à frente de Palmares por 19 anos. Sua última batalha aconteceu em fevereiro de 1694, quando o exército colonial, com mais de 10 mil homens armados com canhões, destruiu o quilombo. Zumbi conseguiu fugir e quase dois anos depois foi rendido e morto a tiros. Era 20 de novembro de 1695, data em que hoje se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra.

Francisco Carlos – líder comunitário
“Zumbi é para mim um grande ídolo e eu gosto muito de cantar uma música porque ela me traz a presença deste mártir da história quilombola do Brasil. Diz a letra:

Eh, meu pai quilombo eu também sou quilombola
A minha luta é todo dia e toda hora
Eh, meu pai quilombo dizem que Zumbi morreu
Zumbi está vivo a quem luta como eu
Quilombos são negros numa grande união
Lutando com força contra a discriminação
Eh, meu pai quilombo eu também sou quilombola
A minha luta é todo dia e toda hora”.

Júlio Tavares – antropólogo carioca
“Há um conjunto de resistências – religiosa, artística e sócio-organizacional -, que implicam na música, na dança, nas performances, na culinária, nas religiões e nos quilombos. Unidas, essas resistências convergem ao que chamamos de movimento negro, mas que eu, em particular, penso no plural ‘movimentos negros’. Percebo que esses movimentos vivem hoje uma transformação de qualidade muito grande: deixam de ser meramente reinvindicativos para apresentar propostas e perdem o caráter de vitimização a fim de construir um programa político”.

Francisco Carlos – líder comunitário
“Quando nasci, parte da cultura e da religiosidade já estavam caindo no esquecimento entre os habitantes do meu quilombo. Comecei a participar de atividades como o Bumba Boi e o Tambor de Crioula nos quilombos mais próximos, principalmente no Santo Antônio dos Pretos, e também no quilombo onde morava. Eu devia ter uns 14 anos. Ao conhecer a história do meu povo, tomei a decisão de lutar por ele”.

Valdina Oliveira Pinto – pesquisadora baiana
“Na medida em que resgatamos a tradição desses quilombos, entendemos a gênese do povo brasileiro. Eu sempre digo que não aceito mais ser objeto de pesquisa. Nós, negros, precisamos ser novamente sujeitos da nossa origem, da nossa fala, da nossa visão de mundo. Quero que toda criança negra busque com seus familiares e vizinhos mais velhos os valores africanos, que tem a ver com construir junto, unificar para crescer, viver no coletivo”.

CONHEÇA A LENDA

Ogum é um orixá benfeitor, capaz de salvar muitas vidas, mas também destruidor de reinos.