Meio Ambiente e Saúde

“Sem folha não existe orixá e sem orixá não existe folha”. A natureza apresenta-se como veículo de manifestação divina. Portanto, é importante respeitá-la. A conexão com os deuses e a cura para os males físicos e espirituais podem estar no verde das matas, no colorido das flores e nos sabores que a natureza nos oferece. O programa ‘Meio Ambiente e Saúde’, terceiro da série ‘Mojubá’, conta sobre as relações das religiões de matriz africana com a natureza, traço em comum com as culturas indígenas, que foram incorporadas pelos cultos afro-brasileiros. O sagrado pode estar, sim, no mundo material que nos cerca.

As religiões afro-brasileiras são, com trocadilho, ecológicas por natureza. Seus fiéis aprenderam com os antepassados uma grande lição africana: o equilíbrio surge da convivência harmoniosa entre todos os seres vivos, dos quais o homem é apenas uma pequena semente. Quando o primeiro ser humano respirou sobre a Terra, as plantas já faziam parte desta infinita paisagem universal há mais de 400 milhões de anos.


Mãe Beata de Yem
anjá – Ialorixá baiana
“Só alcançamos o sagrado quando nos aproximamos da natureza, o que inclui pedra, água, folha, raiz, caule, frutos e o nosso próprio corpo. Tocar a natureza significa se fortalecer, trazer o sagrado para o seu interior. Nós somos a morada verdadeira da natureza e, através de nossos mitos e ritos, nós a perpetuamos”.

Mara Zélia – botânica baiana
“Usar um vegetal num momento simbólico estimula o sistema imunológico do indivíduo que atua como um agente ativo da sua própria cura. Além de sentir os efeitos bioquímicos, este paciente participa do seu processo de cura por acreditar que aquela forma herdada dos antepassados, ou que os deuses mandaram ele usar, é eficaz.

Pesquisas feitas em testes imunológicos comprovam que este paciente obtém resultados muito melhores do que aquele que não se envolve emocionalmente no seu tratamento. Não basta ingerir um chá para adquirir saúde. Há determinados banhos com ervas aromáticas, incensos e aromas que você pode usar para se comunicar com os deuses. Esse é o contexto geral que estudamos em etnobotânica”.

Macaya. Essa era a palavra que os africanos de Angola e do Congo usavam

para designar a mata, a floresta e também cada uma das folhas usadas nos rituais e na cura. A escravidão atlântica trouxe africanos de diferentes nações para o convívio com outra macaya: a brasileira.

Aderbal Ashogun – Ylê Omi Oju Aro
“Acompanho o trabalho da minha mãe desde a infância. Ela é uma sacerdotiza responsável pela coleta e produção das plantas litúrgicas. De uns tempos para cá, venho notando o aumento da quantidade e a inserção de novos produtos nas oferendas. E daí partiu meu interesse por essa questão, que é um dos pontos mais fortes de preconceito da sociedade contra a minha religião. Foi isso que me levou a trabalhar com o manejo desses materiais.

A nossa proposta é dar um destino final aos resíduos sólidos que não podem ser assimilados pela natureza. Os alguidares, por exemplo, servem depois como recipientes para plantas e são usados como vasos ornamentais. A louça também pode ser reutilizada, mas o material de barro não, porque é poroso e, assim, se infesta mais facilmente de bactérias”.

Os negros receberam uma grande ajuda dos índios assim que desembarcaram em terras brasileiras, com sua medicina e seus rituais religiosos peculiares. O intercâmbio de informações entre os dois povos foi favorecido por uma crença em comum: a de respeito ao meio ambiente. Para ambos, cuidar da natureza sempre significou cuidar das divindades.

Ricardo Frei

tas – professor carioca
“O mundo ocidental opôs o conhecimento científico ao popular. Os religiosos sabiam tudo sobre o meio ambiente, mas eram ignorados pelos cientistas. Há uma transformação nesse sentido porque já se fala que as religiões contribuem para a preservação da natureza, visto que os próprios terreiros estão localizados em áreas verdes.

Lembro de um programa que mostrava, via aérea, os terreiros da Bahia. No início, era um plano geral de Salvador. O texto em off dizia ‘Tenha certeza de que onde se vê árvores funciona um terreiro’. De fato. A câmera descia até mostrar de perto os famosos terreiros da cidade”.

Mãe Beata
“Você tem qu

e saber colher a planta no horário certo, saber quais palavras dizer neste instante e até mesmo com qual mão vai arrancá-la. Existem plantas que perdem a vitalidade sagrada depois de receber muita chuva e as folhas secas reservam um valor diferente das folhas verdes e das maduras”.

Omolu é o orixá das cores preto, branco e vermelho. Ele carrega um cajado, o xaxará, e cobre-se com um manto de palha da cabeça aos pés, o ofilá. Omolu é o orixá que rege as doenças, podendo tanto trazer uma peste quanto curar qualquer doença.



Mara Zélia – botânica baiana
“Existem
orixás vinculados às plantas de água: aquelas que tem as folhinhas mais verdinhas, mais gordinhas ou plantas que crescem dentro d´água e nas beiras dos rios. E isso podemos ilustrar com aquele jasmim que nasce em charco e na beira das cachoeiras e é oferecido a Oxum. Há espécies relacionadas ao inchaço, à amamentação e ao parto, que seriam plantas femininas ligadas a Iemanjá e Oxum. As que ardem e queimam são de Exu, que é fogo. Xangô também é fogo e suas plantas são quentes. As plantas da terra, de grande porte, remetem a Oxóssi, como a aroeira, o cajueiro e a mangueira”.

José Marmo
“Iniciamos um trabalho sobre saúde nos terreiros em 2001, chamado Atoirê, que significa ‘a cabaça que Ossaim traz contendo ervas medicinais’. Três anos depois, este projeto cresceu e virou a Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde’, que atua em 15 estados. Até o Sistema Único de Saúde (SUS) está utilizando esse material de estudo que recolhemos nos terreiros para cuidar de seus pacientes”.

Em maio de 2005, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a lei de implantação da fitoterapia no SUS e o Brasil passou a ter a medicina chamada complementar. Os especialistas avisam que é errado chamá-la de ‘alternativa’ porque, na verdade, ela é a medicina tradicional. A alopática é convencional porque vem das convenções dos poderes públicos. Na China, por exemplo, a medicina tradicional coincide com a convencional.

Aderbal Ashogun – Ylê Omi Oju Aro
“A maior contradição é ver, em uma mata que nossos ancestrais ajudaram a reflorestar, um aviso proibindo despachos. O poder público desconhece completamente as necessidades das nossas religiões, embora reconheça que fizemos este serviço na região. A presença do negro dentro da Floresta Nacional da Tijuca é muito mais forte do que qualquer etnia.

Para a geração de hoje do candomblé já existe o pensamento de reduzir a quantidade de oferendas, mas é importante dizer que as nossas práticas sempre foram sustentáveis, como as práticas dos índios, druidas e xamãs. Nós sempre firmamos uma relação maternal com a natureza”.

CONHEÇA A LENDA

Certo dia, Ifá, o senhor das adivinhações veio ao mundo e foi morar em um campo muito verde.