Literatura e Oralidade

Cada orixá tem sua história, rica em sentimentos. Amor, ciúmes, vaidade são alguns dos ingredientes que compõem as narrativas da tradição oral africana. As relações humanas, também repletas desses sentimentos, inspiraram muitas obras-primas da literatura, escritas por Luiz Gama, Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Souza e Solano Trindade, entre outros expoentes. Em ‘Literatura e Oralidade’, quinto programa da série ‘Mojubá’, vemos que se nossa pátria é nossa língua e por meio dela somos um pouco africanos.

Uns negros na cor. Outros, na cor e na forma de descrever o mundo. Uma tradição que se confunde com a própria história brasileira. Afinal, desde que aportaram por aqui no período da escravidão, os africanos trouxeram consigo seu modo de interpretar a realidade e esta é uma influência tão profunda que fará sempre parte do nosso repertório lingüístico.

Joel Rufino - escritor carioca
“O negro era basicamente escravo. Portanto, não tinha como se expressar literariamente. Entre esses homens negros livres, que eram pouquíssimos, surgiram escritores, dentre eles Domingos Caldas Barbosa, autor e intérprete de lundus e modinhas, e o mineiro Basílio da Gama, dois grandes nomes da literatura brasileira setentista”.

Júlio Tavares - antropólogo carioca
“A literatura negra sempre foi um instrumento de valor na construção de uma consciência racial. A obra de José do Patrocínio trazia uma carga política muito expressiva. É claro que os textos eram permeados de comentários da vida cotidiana. Machado de Assis, por exemplo, fazia uma espécie de exercício retórico extremamente sutil porque ele precisava abordar os costumes da vida de uma sociedade formada 80% por descendentes de africanos mas, ao mesmo tempo, era preciso falar daquilo de forma realística e também política”.

Joel Rufino - escritor carioca
“No final do século XIX, quando o sistema colonial já estava em declínio e o império cedia vez à República, isso em 1889, começam a despontar escritores afro-brasileiros de alta qualidade. O principal deles era Machado de Assis. Muitos esquecem que ele, considerado o maior escritor brasileiro, foi um menino favelado, nascido no Morro do Livramento”.

Machado de Assis era negro, assim como outros grandes nomes da literatura nacional, entre eles Luiz Gama, Lima Barreto, Solano Trindade, Cruz e Souza, Lino Guedes, Abdias do Nascimento e Carolina Maria de Jesus.

Nei Lopes - escritor carioca
“A gente comprova a influência da matriz banta na africanidade do Brasil através do vocabulário. Há alguns anos, cometi a ousadia de criar um dicionário em que se procura enfatizar essa presença. Palavras que usamos no dia-a-dia em todo o território nacional, da maneira mais corriqueira, são de origem negra como sunga, tanga, carimbo, tamanco. Há uma infinidade delas”.

Línguas das mais diferentes partes da África chegaram ao Brasil e, muito antes de ocuparem as páginas dos dicionários ou as nobres prateleiras da biblioteca, elas eram preservadas nos terreiros.

Ricardo Freitas - professor
“As religiões afro-brasileiras sempre estiveram centradas na oralidade. Elas não se baseiam num livro sagrado, como a Bíblia e

o Alcorão. Ao invés dos ensinamentos escritos, é uma tradição transmitida através das gerações pela fala”.

Corria o ano de 1650 e o Brasil enfrentava a ameaça da invasão holandesa. Bem longe dali, na distante Lisboa, o rei Dom João IV, o primeiro da dinastia dos Bragança, recebia uma carta de um militar negro que reclamava dos maus tratos de um certo general. O autor da carta, Henrique Dias, era mais do que um soldado. Era um herói na luta contra os holandeses e o documento que ele escreveu era mais do que uma correspondência. Era o primeiro marco de uma longa história que seria escrita pelos negros no país.

Joel Rufino - escritor carioca
“Do ponto de vista tradicional, não há literatura negra nem pode haver porque se os negros se expressam em português, a literatura ou é portuguesa ou é brasileira. Mas de outro ângulo, temos aqui escritores de expressão que introduzem uma nota negra bem distinta. Então, podemos entender como literatura negra”.

Muniz Sodré - escritor baiano
“A literatura é mais um ‘como’ se diz do que um ‘o que’ se diz. Então, a grande ficção da literatura é a ficção da língua. Isso quer dizer que ninguém fala a língua que o autor escreve: Parece, mas ninguém fala daquela maneira. Não existe, digamos, uma literatura que se possa chamar de negra no Brasil. Literatura é literatura e isso não tem a ver com a cor da pele.

Há os contos de terreiro narrados por mestre Didi, na Bahia, extraídos da tradição nagô, e há também os contos de Nei Lopes, que são muito interessantes. Posso citar os meus contos, bastante conhecidos pelos capoeiristas. Joel Rufino é um autor importante. Essa literatura é escrita, em geral, por negros e traz este compromisso social do negro no Brasil. No entanto, não creio que exista, como categoria literária, uma literatura negra”.

O grande pioneiro da literatura produzida por autores negros e explicitamente engajados na luta contra o racismo foi Luiz Gama. Ele fazia uma irreverente sátira aos costumes da época. Nada lhe escapava: nem os políticos, nem a guarda nacional, tampouco os privilégios da igreja ou a impunidade dos poderosos.

Um dos autores pré-modernistas que mais se destacaram na história das letras nacionais foi o mestiço Lima Barreto, que viveu entre 1881 e 1922.

Joel Rufino – escritor carioca
“Lima Barreto já é um passo adiante porque a literatura não tem evolução. Pode haver um grande escritor no tempo antigo muito superior a todos os outros da atualidade. A literatura não evolui, mas fica mais complexa. E Lima Barreto é um avanço em direção a essa literatura brasileira mais sofisticada, no início do século XX.

Ele nasce seis anos antes da abolição da escravatura e se torna escritor na fase republicana. Lima Barreto fez romances, contos, crônicas e artigos de jornal. A grande novidade da obra dele é que pobres, negros e suburbanos, tanto homens quanto mulheres, deixam de ser meros coadjuvantes e são lançados à condição de protagonistas”.

O século XX ainda revelaria manifestações mais contundentes contra o racismo. O pernambucano Solano Trindade foi o criador da poesia assumidamente negra no Brasil. Na década de 1930, idealizou o I Congresso Afro-brasileiro. Também militou a favor dos negros no teatro: Em 1975, uniu forças a Abdias do Nascimento para lançar o Teatro Experimental do Negro (TEM). Cinco anos depois, fundou, com Edson Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro (TPB).


Ruth de Souza - atriz
“Não existia ator negro naquela época. Então, o Abdias do Nascimento fundou o teatro para que pudesse mostrar que nós, os negros, éramos capazes de atuar, sim. Na ocasião, havia quatro companhias fortes que movimentavam os teatros cariocas. Eles tinham um elenco pronto, com cerca de seis atores e quando precisavam de um negro, um desses atores, branco, se pintava de preto e fazia o papel.

O movimento do teatro negro foi muito importante porque mostrou que o negro também podia ser ator. E nós montávamos muitas peças, sempre como amadores. Quando o Eugene O'Neil cedeu os direitos ao grupo, os jornais noticiaram com espanto. Isso deu uma força ao grupo, que durou de 1945 a 1950, realizando uma ou duas montagens por ano”.

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Obá, a orixá guerreira, disputava o amor de Xangô com Iansã e Oxum.