Famílias

A família é uma invenção humana. E a África, berço da humanidade, foi o lugar onde ela surgiu. Foi na África que os humanos criaram as formas mais essenciais da sua vida social e foi lá que surgiram as primeiras instituições gregárias das sociedades humanas: os agrupamentos coletivos, as famílias.

Em muitas comunidades africanas acredita-se que só se conhece de verdade uma pessoa conhecendo a sua família de origem. Sua personalidade, educação e características são definidas a partir da família. O que uma pessoa pode ou deve fazer, sua herança material ou imaterial dependem de sua origem familiar. Esse vínculo é tão forte, que, muito antes do desenvolvimento da genética, sociedades africanas já associavam algumas doenças à herança familiar.

A matrilinearidade era outra característica da família africana. A marca da descendência era definida pela linhagem da mãe, ou seja, o que definirá se uma pessoa é parente ou não de outra é o parentesco pelo lado da mãe.

Quando alguém era escravizado em alguns lugares da África, tinha seus laços de parentesco simbolicamente rompidos pela escravização. O mesmo aconteceu com os africanos trazidos para o Brasil. Os mercadores acreditavam que, sem os laços familiares, os africanos escravizados seriam mais obedientes à família dos seus donos.

Nas sociedades em que a convivência familiar é estreita e permanente, em que os conhecimentos e saberes são passados, em sua maior parte, por intermédio de familiares, em que o trabalho se faz em grupos formados por familiares, a família assume importância vital.

Em muitas sociedades africanas os direitos e deveres estavam ligados a um código familiar mantido pela tradição oral. Em algumas famílias, em ocasiões festivas, até o padrão das roupas era o mesmo – tecidos com estampas que identificavam o grupo. Esse modelo familiar se desfazia com a escravização. O africano escravizado era, por definição, alguém que havia perdido seus laços familiares, seja por captura em guerra, endividamento ou compra/venda.

Aqui no Brasil, na situação da escravidão, os africanos sabiam que não sobreviveriam sem família. Assim, buscaram formas para construir novas famílias. Criaram vínculos familiares por meio de casamentos, permitidos pelos senhores por pressão dos escravizados e também por acreditarem que o escravo com família fugiria menos, se rebelaria menos. Também criaram vínculos por meio de relações de compadrio; nas irmandades católicas das quais participavam e por meio da família religiosa - filhos e filhas, mães e pais de santo, que não existiam como tais na áfrica.

Esses novos núcleos familiares agregavam-se e transmitiam os costumes, memórias e tradições.

O PROTAGONISMO DAS MULHERES

As mulheres sempre tiveram um papel de destaque nas sociedades africanas. Além dos cuidados com a família, cabia a elas a responsabilidade de garantir a sobrevivência do grupo através do cultivo da terra. Aqui no Brasil, elas eram a minoria entre os escravizados, mas foram fundamentais para manter as tradições.

As tradições negras foram mantidas e recriadas durante gerações. As libertas africanas nas cidades brasileiras do século XIX tornavam-se, em geral, muito mais poderosas economicamente que os libertos do sexo masculino. Eram as chamadas “sinhás-pretas.”

O protagonismo das mulheres africanas fez surgir figuras lendárias no Brasil, como Tia Ciata, que criou uma “pequena África” no Rio de Janeiro.

As tradições familiares na África tinham uma estreita relação com a religiosidade. Aqui no Brasil, os novos laços de parentesco foram influenciados pelas tradições religiosas de matriz africana, recriadas nas comunidades de terreiro, e pelo catolicismo, através das irmandades religiosas, como a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

Seguindo as matrizes culturais africanas o território sagrado era o terreiro. Nele, mães, pais e irmãos de santo compunham uma nova família.

Muitas dessas características deságuam e sobrevivem no presente, pois os vínculos familiares são importantes demais na história de africanos para se desfazerem.

CONHEÇA A LENDA

No sétimo dia do nascimento a criança é apresentada à lua.