Comunidades e Festas
Os deuses dançam e celebram a vida e assim também fazem os que neles acreditam. As festas em grupo, o som do tambor, os movimentos da dança podem ser instrumentos de oração e reverência às forças espirituais. O divino se manifesta na comunhão da alegria e na vida festejada na companhia do próximo. Os cultos afro-brasileiros, em todas as suas cores, nos mostram a religião como ‘Comunidades e Festas’. Esse é o nome do sétimo e derradeiro programa da série ‘Mojubá’, um indicativo de que celebração também é história.


Os deuses dançam e celebram a vida e assim também fazem os que neles acreditam. Os festejos em grupo, os sons dos tambores, os movimentos dos corpos de todas as cores podem ser instrumentos de oração e reverência às forças espirituais. Afinal, o divino se manifesta na comunhão da alegria com o próximo. É fácil perceber que os cultos afro-brasileiros são comunidades que dominam bem a arte de festejar, um indicativo de que celebração também é história.

Zeca Ligiéro – antropólogo carioca
“Na luta para manter a própria tradição religiosa, os negros desenvolveram várias estratégias. Uma delas foi conviver em harmonia com o catolicismo. Se por um lado, os africanos continuaram realizando seus rituais, mesmo depois de se aproximarem da religião católica, por outro, o candomblé carioca e paulista, o Xangô pernambucano e a Casa de Minas do Maranhão sempre lutaram contra a polícia e o Estado, sempre negociaram para que seus cultos sobrevivessem”.

Pai Bira de Xangô – RJ – Ilê Axé Oju Oba Ogodô
“Nunca foi perguntado aos nossos ancestrais, os escravos, se eles queriam ser católicos ou se aceitavam o sincretismo. Foi uma imposição dos europeus e essa prática passou para as gerações seguintes, sem muita explicação. No sincretismo, Iansã é identificada como Santa Bárbara. Acredito que Santa Bárbara seja um ser iluminado, mas com certeza não é Iansã porque ela vem de mais de quatro mil anos antes de Cristo. Santa Bárbara tem muito menos de dois mil anos. É preciso que se entenda que são diferentes. Nós deixamos de ser colônias, mas, se continuamos no sincretismo, permanecemos colonizados, escravos de outra cultura”.

Mãe Stella de Oxóssi – BA – Ilê Axé Opô Afonjá
“É por isso que eu digo que temos que procurar as nossas raízes religiosas a fim de saber que não precisamos nos encostar em outras religiões para viver com seriedade e veracidade. Cada um que preserve o que é seu. Já sabemos quem é o nosso deus principal, quem são os nossos orixás, o grande protetor, a essência das obrigações e também o que o nosso corpo representa dentro da crença”.

Zeca Ligiéro – antropólogo carioca
“Falar em cultura afro é muito amplo. Talvez o termo ‘afro’ já não dê mais conta de definir a variedade dessas influências. Isso aparece, principalmente, a partir da década de 1920, com a criação das escolas de samba. A cultura negra causou um grande impacto no Rio de Janeiro e, depois, em todo o Brasil. O carnaval é importante, assim como a presença das baianas, do mestre-sala e da porta-bandeira, herança dos antigos cordões. Enfim, tudo isso é apenas uma parte do divertimento”.

Jocélio dos Santos – antropólogo baiano
“Desde o século XIX, quando nós observamos as manifestações culturais negras, não encontramos uma linha rígida que separasse o mundo sagrado do mundo profano. Pelo contrário. Todas as manifestações religiosas e também as de rua, entre eles o samba, revelam essa linha tênue”.

Carlos Negreiros – músico carioca
“Todo mundo sabe que o carnaval não é originalmente negro, mas europeu. Considero que ele foi negrificado ao longo da história. Foi inventado para ocupar os grandes salões, só que o Brasil é uma maravilha e os negros decidiram copiar, mas do seu jeito. Daí surgiram os afoxés, os cordões, as escolas de samba.

Nas casas da Praça Onze coexistiam três ambientes distintos: um mais europeu, onde se tocava polcas, outro mais negro e, no fundo, o batuque para valer. E quem tocava nesses batuques era o mesmo negro que tocava nos terreiros. As duas atividades eram proibidas. Portanto, o cara que era encontrado com alguma percussão, perdia o instrumento e era preso. Candomblé, para poder funcionar, tinha que ter registro na polícia”.

Uma das maiores festas afro-brasileiras surgiu de um escrito apócrifo cristão. Diz o texto que certa vez, a Virgem Maria entrou em dormição, isto é, dormia o sono da morte, diante dos apóstolos de Jesus. O seu corpo imaculado foi então levado a um sepulcro novo, mas quando os apóstolos voltaram lá, três dias depois, encontraram o local vazio e com aroma de flores. A Virgem havia subido aos céus em corpo e alma.

A Virgem recebeu o nome de Nossa Senhora da Boa Morte e seu culto foi trazido ao Brasil pelos padres jesuítas. As primeiras procissões em homenagem à santa aconteceram em Salvador, na Bahia.

Anália da Paz – BA – Irmandade Nossa Senhora da Boa Morte
“Quando começou, na Barroquinha, a nossa irmandade era muito pobre. A gente lutava, criava porcos, galinhas e tudo o mais no terreiro. Fomos expulsas da região por um governador chamado Madeira de Mello. Foi quando decidimos partir rumo a Santo Amaro e nos instalamos em Cachoeira, onde existe o Engenho da Vitória, lugar que reunia muitos negros alforriados e outros ainda cativos ao trabalho. A irmandade organizou um quilombo para acolher as irmãs, que sobreviviam vendendo pé de moleque, pamonha, feijão e outros quitutes. Sou uma negra feliz por ser membro da irmandade”.

Auranice Corrêa – geógrafa carioca
“Dessa irmandade saíram as primeiras mães-de-santo da Bahia. Foi o primeiro movimento de mulheres numa resistência negra. Elas participaram ativamente em todas as rebeliões dos hauçáis e dos malês e também ajudavam nos quilombos. Elas tinham uma importância social imensa na compra de escravos, na recomposição social, política e religiosa do homem escravizado”.

Nilza de Carvalho – BA – Irmandade Nossa Senhora da Boa Morte
“A irmandade tem, aproximadamente, 230 anos. Na época da escravidão, as mucamas que trabalhavam na casa dos senhores ajudavam seus irmãos a fugirem para outros quilombos, levando dinheiro, remédio, muitas vezes comprando sua carta de alforria”.

Walmir Pereira – administrador baiano
“A irmandade é conhecida em todas a América como um dos primeiros movimentos abolicionistas de mulheres. Naquela época, o negro era objeto: podia ser vendido, emprestado e alugado. Na verdade, elas queriam acabar com isso. Queriam libertar o negro de uma forma total, buscando a condição de compra da alforria. Era a única forma do negro ser livre”.

Anália da Paz – Irmandade Nossa Senhora da Boa Morte
“Na época os negros eram todos do culto afro e cultuavam seus deuses na senzala. Havia muito sofrimento, principalmente no Pelourinho, que era um lugar de massacre. Então, a irmandade adotou a Virgem Maria, católica, para acabar com a dor e a humilhação”.

Walmir Pereira – administrador baiano
“Essa era única forma que os negros tinham de se organizar: camuflando sua religiosidade e aderindo à conjuntura católica. Adotaram a irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, que na verdade, era um terreiro de candomblé”.

O jongo, também conhecido como ‘dança das almas’, é originária dos pretos-velhos escravos e dotada de forte motivação religiosa. Os cânticos que embalam o movimento dos corpos numa roda de jongo se assemelham aos pontos de umbanda e têm linguagem metafórica, exigindo muita vivência dos jongueiros para o entendimento de seus significados.

Houve um tempo em que os jongueiros eram conhecidos como poetas-feiticeiros porque se arriscavam ao disputar sabedoria. Ao receber um ponto enigmático, o desafiado era obrigado a decifrar na hora e responder à altura. Caso contrário, era enfeitiçado, correndo o risco de desmaiar, perder a voz ou até mesmo morrer sem motivo aparente. Hoje em dia não é mais assim.

Seu Nico – coordenador do Grupo de Dança Caxambú – RJ - Santo Antônio de Pádua
“Essa tradição vem passando desde criança. Eu aproveito o trabalho das crianças para que o jongo não acabe”.

Jocélio dos Santos – antropólogo baiano
“Existem festas muito representativas na Bahia, como a Lavagem do Senhor do Bonfim. Ocorre sempre às segundas-feiras de janeiro e já chamava atenção no século XVIII pela mistura de brancos e negros na celebração. Há uma grande caminhada até a igreja do Senhor do Bonfim, onde as baianas lavam as escadas com água-de-cheiro.

Iemanjá e Santa Bárbara têm festas distintas que atraem grandes multidões. A primeira, comemorada no dia 2 de fevereiro, é mais afro-brasileira. Milhares de pessoas se deslocam do bairro do Rio Vermelho até as praias para entregar oferendas à rainha do mar. A festa de Santa Bárbara, muito popular, é afro-católica. Durante a missa, dedicada à Santa Bárbara - ou Iansã, de acordo com o sincretismo -, pessoas do candomblé entram em transe. Depois, uma procissão varre as ruas de Salvador. No final, já no mercado de Santa Bárbara se oferece um grande caruru à toda aquela multidão”.

Beatriz da Conceição – antropóloga baiana
“Santa Bárbara é a deusa dos raios e dos trovões. Então, essa festa é muito importante porque nós podemos ir até ela fazer os nossos pedidos de paz, união e prosperidade. Flores e água são depositadas na escadaria, que fica muito bonita no dia 4 de dezembro. Os filhos-de-santo, já com as roupas características de cada orixá, batucam o dia inteiro e recebem as entidades. As pessoas da comunidade se misturam, brincam e louvam Iansã, uma guerreira cheia de luz, como a sua festa. Quando nos aproximamos dela, tudo fica positivo, alegre e é recebemos muito axé”.
 

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Há muitos e muitos anos, um episódio interessante percorre a África inteira.