Ciência e Tecnologia

Nas antigas sociedades africanas, o ferreiro não era visto apenas como um homem que dominava uma técnica. Artífice do ferro, era um personagem de alta estirpe. Um técnico, artista e mago. Mesmo hoje, em muitas regiões da África banta, os ferreiros ainda constituem uma categoria à parte, uma verdadeira casta. Eles não apenas monopolizam a tecnologia como desempenham os papéis de curadores de doenças e oficiantes em cerimônias e rituais.

Os bantos predominavam entre os africanos escravizados trazidos para o Brasil. Os negros provenientes do Congo e de Angola eram comprados no Rio de Janeiro, nos mercados de Valongo, na atual zona portuária da cidade. Dali eram levados para as regiões das minas e dos diamantes e para as fazendas, onde eram os responsáveis pelo abastecimento de ferramentas como machados, enxadas e foices e instrumentos usados para a manutenção dos engenhos de açúcar.

Durante muito tempo no Brasil os trabalhos manuais eram considerados menos dignos e importantes, por isso, eram feitos pelos escravos e imigrantes pobres. Com o fim da escravidão, esses africanos e seus descendentes brasileiros se tornaram maioria entre os aprendizes e mestres dos ofícios artesanais. Ainda hoje, muitos afrodescendentes continuam a trabalhar como ferreiros. Alguns se dedicam a fabricar não apenas portas e grades, mas também esculpem figuras e símbolos associados à sua religiosidade, um tipo de trabalho que requer muitos conhecimentos e maestria no ofício.

Muitas vezes, o resultado desse trabalho deixa de ser apenas um objeto utilitário para se transformar em arte. De ferreiros, transformam-se em artistas plásticos.

SABERES E FAZERES

O conhecimento sobre o poder curativo das plantas é um dos muitos saberes que o Brasil recebeu dos africanos escravizados. Chás, remédios e unguentos aliviavam as dores do corpo e da alma. No conhecimento africano, banhos com ervas serviam para defender, limpar e purificar o corpo. As plantas também podiam ser usadas como descongestionante em inalações e, se queimadas, algumas delas serviam como incenso para trazer bons fluídos. Os africanos e seus descendentes se tornaram os médicos populares nas cidades brasileiras até o século XIX. Eram eles que acalmavam os atormentados, curavam os feridos e tratavam os picados por animais peçonhentos.

Os africanos escravizados também usavam em suas práticas médicas a sangria, utilizada na época em muitos lugares do mundo e considerada um recurso terapêutico fundamental pela medicina europeia. Até hoje os conhecimentos sobre as ervas são usados no Brasil pelos afrodescendentes. Passados de geração em geração, esses saberes estão presentes principalmente no interior. Benzedeiras e rezadeiras, conhecedoras de ervas e chás, continuam tratando as doenças do corpo e da alma de brasileiros de todas as regiões do país.

A África, berço da humanidade, também desenvolveu tecnologias fundamentais para a cultura humana. Além da metalurgia, alguns povos bantos praticavam a caça com utilização de rede, armadilha de laço, arco e flecha, armadilhas cavadas no chão e até um tipo de espingarda. Também praticavam a pesca e a olaria; faziam trabalhos em folha de palmeira; carpintaria; tecelagem; curtiam peles; faziam escultura e gravação em marfim e madeira e preparavam bebidas alcoólicas. Fabricavam um tipo de pólvora usando uma cana chamada djeredjere e uma espécie de casca chamada uunga, que se formava sobre rochas. Praticavam a agricultura e a pecuária. Todas essas atividades e técnicas foram trazidas para o Brasil.

Os povos bantos também já conheciam a tecelagem. Produziam panos de algodão de ótima qualidade, que eram exportados para a Europa desde o século XII. Além do algodão, usavam as fibras de uma palmeira chamada ráfia para fabricar um tecido conhecido como pano de palha.

Os povos bantos tinham grandes conhecimentos matemáticos. A cultura de matriz banta está repleta de símbolos geométricos. O que mais chama a atenção dos cientistas, no entanto, é um pequeno pedaço de osso de um macaco babuíno: o osso de Ishango, encontrado no Congo em 1960. Com cerca de 20 mil anos, o osso, guardado no Real Instituto Belga de Ciências Naturais, pode ser o mais antigo artefato matemático que se conhece. Além de um pedaço de quartzo incrustado numa extremidade, o osso contém traços divididos em três colunas.

CONHEÇA A LENDA

Conta uma lenda do povo do Congo que, um dia, o Trovão