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Programa:

O menino Nito e Menina bonita do laço de fita

LIVROS

:: O Menino Nito, de Sônia Rosa – Ilustração Victor Tavares – Editora Pallas.

:: Menina Bonita do Laço de Fita, de Ana Maria Machado – Ilustração Claudius – Editora Ática.

O primeiro livro conta a história do menino Nito, que por tudo chorava. Seu pai, achando que ele já era grande para tal comportamento, vem com o seguinte discurso: “Você é um rapazinho, já está na hora de parar de chorar à toa. E tem mais: homem que é homem não chora.”

Essas palavras selaram o novo comportamento de Nito. O menino deixou de chorar. Em função dessa postura, ele ficou doente. A visita do médico resolveu o seu problema: o menino tinha de “desachorar” todas as lágrimas reprimidas.

O segundo livro conta a história de um coelhinho branco que queria ter uma filha pretinha porque achava a cor linda, tal qual a menina do laço de fita. Mas ele não sabia como a menina herdou aquela cor. Como ela também não sabia, dava várias explicações e sugestões, até que ele descobre que a cor era um fator genético. Se ele queria ter um filhote pretinho, teria de se casar com uma coelha pretinha.

Os dois livros podem ser inseridos no que genericamente se denominou literatura infanto-juvenil voltada para a temática relacionada com as questões étnicas. São livros que retratam o universo cultural e o cotidiano dos afro-descendentes.

Justificativa da escolha dos dois livros para um programa

- O contexto é atual e os dois protagonistas são negros.
- A questão da beleza (negra) envolve o próprio nome do protagonista boNITO, da mesma forma que em Menina Bonita, razão pela qual o coelhinho quer ter um filhote preto.
- Nito e a Bonita pertencem a famílias que chamaríamos genericamente de classe média, fugindo do estereótipo do “negro/pobre”.
- Herança enquanto transmissão de valores culturais e genéticos.

Especificamente pode–se trabalhar os seguintes aspectos com cada livro

- O processo subjetivo em que ocorre a consolidação de valores que aparentemente emergem como naturais em nossa sociedade, tal como “homem não chora”. A naturalização dessas idéias é construída desta forma, envolvendo muito carinho. O pai de Nito só queria educar o filho (provavelmente como ele fora educado). “Macho não chora.” Assim como essa idéia, outras também são transmitidas assim, tais como os preconceitos, sejam eles de fundo religioso, étnico ou sociais. Essa situação pode ser vista na página 5 de Nito.

- A questão fundamental do livro é como essa relação se materializa. O adulto às vezes não tem noção da importância do que ele fala para a criança e muito menos o conhecimento de como a criança vai elaborar (interpretar) o que ouviu. No caso de Nito, ele foi construir um muro alto para se adequar aos desejos (educação) do pai. Herança cultural passa também pela educação, como instrumento de transmissão de valores. Esse processo de introjeção de valores pode ser visto na página 6. A confusão do menino estava na noção de que ser homem passava por não chorar. Quando o médico lhe pediu que se lembrasse do choro retido e começasse a chorar, Nito perguntou ao médico se ele era realmente homem. A passagem da página 11 explicita essa idéia.

- A relação entre gerações está colocada na capacidade do diálogo entre pai e filho. O reconhecimento pelo pai da forma equivocada como pediu que Nito não chorasse mais foi uma experiência importante para ambos. Para Nito, a figura paterna era muito importante, e para o pai significou uma maior aproximação com o filho. O diálogo das páginas 14/15 contempla essa idéia.

- Em Menina Bonita a negritude enquanto beleza está explicitada. A menina é bonita por conta de sua cor. O cuidado com a beleza também está colocado, seja nos cuidados com os adereços, nas tranças e nos laços de fita, seja no cuidado com o corpo. A beleza negra como afirmação da auto-estima. A descrição da primeira página insere o modelo de beleza e a página 2 narra os cuidados de beleza tipicamente étnicos.

- A idéia de descendência e ascendência como herança cultural e genética. O coelho queria ter um filhote negro ao mesmo tempo em que se deu conta de que sua árvore genealógica não permitira isso, a não ser que se casasse com uma coelha preta. Essa problemática pode ser encontrada nas páginas 13/17.

- A mensagem positiva da miscigenação e as várias possibilidades de mistura, tal qual ocorre em nosso país. A mistura dos dois coelhos resultou em filhotes de todos as matizes. A página 19 explicita essa questão.

Sugestão de trabalhos para o programa

Atitudes do dia-a-dia reforçam e consolidam idéias que nem sem sempre são verbalizadas e acabam se tornando “verdades” sociais. Produto de intrincados processos de internalização de valores sociais, esse tipo de naturalização pode ser encontrado/materializado em nossa sociedade em exemplos como a pouca procura/matrícula de meninos em aulas de balé e de meninas em escolinhas de futebol; ou na dificuldade de encontrar bonecas de outras etnias que não a européia. Trabalhar com essas questões seria interessante no programa.

Uma sugestão de trabalho é que haja uma inversão dos papéis sociais, meninos fazendo coisas de menina e vice-versa. Há várias possibilidades, entre elas a de meninas construindo o que acham ser um brinquedo para menino, e os meninos para as meninas.

Outra sugestão está relacionada com a questão do medo (o que os levaria ao choro). Eles podem fazer mímica do que teriam medo para que os outros adivinhassem, ou algo similar.

E finalmente trabalhar com a estética negra, como afirmação de beleza, tais como fazer trancinhas (com contas, laços etc.) nas meninas/meninos e deixar que se vistam com uma produção afro (abadás, alacás etc.). Ou mesmo fabricação de bonecas e bonecos de várias cores e com características das várias etnias (asiática, indígena, africana e indo-européia).

Para saber mais

. Chagas, Conceição Corrêa. Negro: uma identidade em construção. Dificuldades e possibilidades. Rio de Janeiro/Petrópolis: Vozes, 1996.
. Fernandes, F. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Ática, 1978, 2ª ed.
. Fonseca, Maria Nazareth Soares (org). Brasil afro-brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
. Gonçalves, E. (org). Desigualdades de gêneros no Brasil. Goiânia: Grupo Transas do Corpo, 2004.
. Munanga, K. (org). Estratégias e políticas de combate à discriminação racial. São Paulo: EDUSP, 1996.

::: Textos de Lucia Silva, Dra. História Social.