Tia Ciata - Hil谩ria Batista de Almeida (1854鈥1924)
por Leci Brand茫o




TIA CIATA

CENA 1

Tia Ciata
Isso aqui era a Praça Onze. Era a capital de um reino chamado Pequena África. Um reino imaginário, que reunia boa parte dos negros que viviam no Rio de Janeiro nos anos logo depois da Abolição. Um reino que seguia a religião, a arte e a culinária da mãe África. Um reino do qual eu fui rainha.

CENA 2

Tia Ciata
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Mas não nasci no Rio. Cheguei aqui ainda no século XIX, já mulher feita, vinda da Bahia, onde os orixás me presentearam com o dom de fazer quitutes.

Tia Ciata
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Foram eles que me garantiram o sustento no Rio. Fazia doces em casa e vendia na rua, não sem antes oferecer pros Orixás. Nessa época, morava no Centro e trabalhava por lá mesmo, sempre vestida de baiana.

Tia Ciata
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Estava quase começando o século XX, quando me mudei para a Praça Onze. Os negócios iam bem e a casa era grande – três quartos, quintal e um barracão pros Orixás.

Tia Ciata
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Festa, seja pra Orixá ou pra gente mesmo, era minha especialidade. Umas duravam até três dias. Tinha sempre comida no fogão e música pela casa toda, do chorinho ao partido-alto, dependendo do cômodo. Uns meninos bons de música viviam lá, como o Pixinguinha. Eu adorava cantar e ensinei muitos deles a dançar o miudinho.

Tia Ciata
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Uma das histórias sobre a minha casa diz que “Pelo Telefone”, o primeiro samba a ser gravado em disco, foi composto lá. Dizem que eu fui até uma das autoras. Mas esse mistério eu deixo pros pesquisadores.

Tia Ciata
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Dizem também que eu sou a mãe do samba. Bobagem, sou a tia. Disso eu tenho certeza. Eu morri antes dos desfiles das grandes escolas começarem, mas até hoje eu vivo em cada baiana que entra na avenida. Eu sou a Tia Ciata. Sou uma cidadã negra brasileira.

CENA 3

Leci Brandão
“Nisso, orixás e gente são iguais: adoram uma boa festa”, disse Tia Ciata. E eu digo: sou LECI BRANDÃO. Sou uma cidadã negra brasileira.

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