Paulo da Portela (1901-1949)
por Neguinho da Beija-flor




PAULO DA PORTELA

CENA 1

PAULO DA PORTELA está elegantemente vestido. Gravata, gomalinado, com chapéu bem ao estilo dos anos 20.

À medida em que ele fala, o quadro vai abrindo e mostra que Paulo está sentado num vagão de trem urbano dos anos 20.

Paulo
A elegância é fundamental. Um homem, para ser alguém na vida, tem de saber se comportar, tem de saber se vestir, tem de saber falar, tem de saber ser um cavalheiro. É como eu sempre digo, tem de manter os pés e o pescoço ocupados. Nos anos 20, uma época em que os códigos de vestuário eram bem diferentes dos de hoje, isso significava estar sempre calçado e de gravata.

CENA 2

Paulo
(off)
Isso vale para quem tem e para quem não tem dinheiro. Nasci um carioca pobre como tantos outros. Nos anos 20, fui parar em Oswaldo Cruz como outros pobres iguais a mim. O lugar era uma roça. E longe, muito longe do centro da cidade.

Paulo
(off)
Trabalhava na cidade. Era como viver entre dois mundos. O subúrbio quase rural de Oswaldo Cruz e o burburinho elegante do Centro, unidos por uma linha de trem.

Foto da Estrada do Portela nos anos 20.

Paulo
(off)
Era um momento em que as escolas de samba estavam começando a aparecer. Fundamos a Portela, que, na verdade, nasceu com outro nome, e fomos pra Praça Onze desfilar.

Paulo
(off)
Mas eu achava que a Praça Onze não era suficiente. Era preciso levar o samba para a avenida, a passarela mais nobre do Carnaval. Porém, para conseguir isso, era preciso levar essa gente que se julgava chique para conhecer o samba no subúrbio e descobrir que o sambista não é necessariamente um malandro.

Paulo
(off)
E foi exatamente isso o que eu fiz. Atuando como um bom relações públicas, levei autoridades, jornalistas, e até gente de Hollywood para conhecer a Portela. Com isso, eu fiz os dois mundos se conhecerem.

Paulo
(off)
Tem uma Portela que é nome de rua. Tem uma Portela, que é famosa no Brasil inteiro. Tem um Portela, que sou eu, Paulo da Portela. Eu sou Paulo Benjamim de Oliveira, que fez esse povo crescer. Sou Paulo da Portela. Sou um cidadão negro brasileiro.

CENA 3

Neguinho da Beija-Flor
“Portela, minha Portela querida. Serás minha toda vida”, disse Paulo da Portela. E eu digo: sou NEGUINHO DA BEIJA-FLOR. Sou um cidadão negro brasileiro.

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