M茫e Menininha do Gantois (1894-1986)
por M茫e Carmem




MÃE MENININHA

Menininha
Se tem uma coisa que menininha gosta é brincar de boneca. Passei a minha infância fazendo isso. Só que as minhas bonecas não tinham nome de gente; eram pequenos orixás que eu fazia de folhas de bananeira e sementes. Passava os dias nessa brincadeira e as noites sonhando que catava búzios na praia. Mesmo que eu tenha morrido com 92 anos, meu destino foi ser para sempre essa menininha.

CENA 2

Menininha
(off)
Nasci em 1894 de uma longa linhagem de ialorixás, as chefes dos terreiros de candomblé. Minha bisavó foi a fundadora do Gantois. Na década de 20, os orixás me escolheram para ser a ialorixá do terreiro. Eu era tão novinha! Balancei muito antes de aceitar, mas não recusei.

Menininha
(off)
Os primeiros anos não foram fáceis. Muita gente desconfiava que uma mulher de menos de 30 anos pudesse dar conta de uma tarefa tão importante. Para piorar, naqueles tempos, não era nada fácil praticar o candomblé. Ele era proibido e a polícia podia interromper as cerimônias a qualquer momento.

Menininha
(off)
O jeito de contornar a situação era fazer as pessoas se aproximarem do terreiro, conhecer o candomblé. Quando a polícia chegava, eu ia logo explicando: “Isso é uma tradição ancestral, doutor. Venha dar uma olhadinha o senhor também”.

Menininha
(off)
Do mesmo modo que fui abrindo o terreiro para os que não conheciam a cultura africana, aos poucos, fui conseguindo que a Igreja Católica aceitasse que o nosso povo assistisse à missa com as roupas do candomblé.

Menininha
(off)
A perseverança tudo alcança. Nos mais de sessenta anos em que estive à frente do Gantois, vi a situação mudar radicalmente. De reprimidos pela polícia, passamos a ser um dos endereços mais visitados de Salvador.

Menininha
(off)
Sou Escolástica Maria da Conceição Nazareth, a Mãe Menininha. Sou uma cidadã negra brasileira.

CENA 3

Angela Ferreira
“ Deus? O mesmo Deus da Igreja é o do Candomblé. A África conhece o nosso Deus tanto quanto nós, com o nome de Olorum. A morada dele é lá em cima e a nossa, cá embaixo”, disse Mãe Menininha. E eu digo: sou ANGELA FERREIRA. Sou uma cidadã negra brasileira.

Informa莽玫es Relacionadas