M茫e Aninha (1869-1938)
por Chica Xavier




MÃE ANINHA

CENA 1

Aninha
“Todo homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular”. O que acabei de dizer é um dos artigos da Declaração dos Direitos do Homem. Ela foi escrita mais de uma década depois da minha morte. Mas foi por esse respeito que lutei minha vida toda.

CENA 2

Aninha
(off)
Sou filha de escravos trazidos da África para Salvador. E, desde que nasci, ainda nos tempos da escravidão, sou do candomblé, religião que, mesmo proibida, atravessou os tempos.

Aninha
(off)
Fui a primeira ialorixá do Axé Opô Afonjá, em 1910. Hoje, ele é um dos mais respeitados terreiros do Brasil.

Aninha
(off)
Mas respeito foi uma coisa que tivemos de lutar para obter. Cansei de ouvir que o canto e a dança eram coisas de religiões primitivas. Existem duas partes na Bíblia, não é assim? O Velho e o Novo Testamento. Nós seguimos o Velho tanto quanto o Novo. Antes de Cristo, o povo adorava Deus com cantos e danças. Não é verdade? Davi tocava harpa, cantava salmos e dançava ante o Senhor. Nós temos nossos cantos, também, e cada um deles tem uma significação especial. Assim como os católicos têm imagens para seus santos, nós temos nossos símbolos para nos lembrar os nossos orixás.

Aninha
(off)
É bom lutar com palavras, mas é tão ou mais importante criar ações de resistência. Por isso, eu trouxe para a Bahia os 12 obás de Xangô, uma espécie de ministério, que, por reunir pessoas notáveis, protegia o Axé da perseguição.

Aninha
(off)
E fui além. Pressionei o governo federal e consegui que o presidente Getúlio Vargas criasse, em 1934, o decreto nº 1202, pondo fim à proibição aos cultos Afro-Brasileiros. Sou Eugênia Ana dos Santos. Sou Mãe Aninha. Sou uma cidadã negra brasileira.

CENA 3

Chica Xavier
“ Jesus deve ter sido, pelo menos, um homem de cor ”, disse Mãe Aninha. E eu digo: sou CHICA XAVIER. Sou uma cidadã negra brasileira.

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