Machado de Assis (1839-1908)
por Paulo Lins




MACHADO DE ASSIS

CENA 1

Foto do enterro de Machado de Assis. Os medalhões das letras brasileiras carregam o caixão pela escadaria da igreja. À esquerda, numa pilastra, MACHADO DE ASSIS assiste à tudo agachado. Ele levanta-se.

Machado
Sou eu dentro do caixão. Eu mesmo. Estou ali e estou aqui. Por favor, não se confundam. Eu fui o primeiro a permitir que um personagem morto escrevesse um romance. Portanto, nada mais natural que eu, um defunto autor, conte minha história. Tal qual Brás Cubas, permito-me inverter a ordem dos acontecimentos e começar pelo fim: meu enterro, em 1908.

CENA 2

Machado
(off)
Ao contrário de muitos artistas geniais, fui amplamente reconhecido em vida. Vocês não podem imaginar quanto orgulho me causou ver uma multidão muito maior do que os minguados 11 amigos do pobre Brás oferecer-me aos vermes.

Machado
(off)
Quando morri, era o mais conceituado escritor brasileiro. Permitam-me a falta de modéstia, mas fui fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.

Machado
(off)
Eu mesmo, o órfão de um lavadeira branca, criado por uma madrasta negra, que descobriu-se epilético. Tem um outro detalhe: era gago. Mas, como sou eu o narrador dessa história, isso não se percebe, como vocês já devem ter notado.

Machado
(off)
Mas também fui um dedicado funcionário público, que começou sua labuta pela Imprensa Oficial. Escrever é um enorme prazer, só comparável a um salário que pague as contas no fim do mês.

Fotos reproduções de cenas cruéis da escravidão.

Machado
(off)
Não sei se vocês perceberam, mas sou, acima de tudo, irônico. Não é nada fácil reconhecer tal qualidade. Tão difícil quanto saber se Capitu traiu Dom Casmurro.

Machado
(off)
Só os que não reconhecem a ironia podem ser imunes ao drama racial que descrevi no conto “Pai contra mãe”, ou ao deboche que permeia minha primeira crônica após a abolição. Só esses pobres de espírito podem dizer que sou um preto de alma branca. Sou Joaquim Maria Machado de Assis. Sou um cidadão negro brasileiro.

CENA 3

Paulo Lins
“O contador de histórias foi inventado pelo povo”, disse Machado de Assis. Sou PAULO LINS. Sou um cidadão negro brasileiro.

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