L茅lia Gonzalez (1935-1994)
por Sueli Carneiro





LÉLIA GONZALES

CENA 1

Lélia
Sabe qual é o negro mais bonito do mundo? É aquele que tem consciência de suas raízes, de suas origens culturais. É aquele que tem a atitude de quem sabe que é ele mesmo, e não um outro determinado pelo poder branco. Olha só o que os blocos afro de Salvador conseguiram.

CENA 2

Lélia
(off)
Apesar de ter citado a Bahia, sou, na verdade, mineira. Nasci em Belo Horizonte. Sou a penúltima de dezoito irmãos filhos de mãe descendente de índios e pai negro. Imagina como eu me sentia na infância quando ouvia as pessoas dizerem que o índio era indolente e o negro pouco confiável? E ainda dizem que no Brasil não existe racismo .

Lélia
(off)
Estudar foi uma lenha. Coisa da pobreza. Nos mudamos pro Rio de Janeiro nos anos quarenta. Tive de dar muito duro para poder estudar, mas consegui. Me graduei em História e Filosofia, fiz mestrado em Comunicação e doutorado em Antropologia. Nada mal para uma ex-babá.

Lélia
(off)
Antes disso, me casei com um branco, para desgosto da família dele. O choque entre esses dois mundos me despertou para a questão racial. As minhas inquietações me levaram para o movimento negro. A partir daí, o combate ao racismo se tornou minha tarefa principal.

Lélia
(off)
Fui uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado . Dediquei minha carreira acadêmica ao estudo das relações raciais no Brasil. Política e teoria precisam se encontrar. E me candidatei a cargos eletivos.

Lélia
(off)
Além disso, o seguinte: sou negra e mulher. Isso não significa que eu sou a mulata gostosa, a doméstica escrava ou a mãe preta de bom coração. Escreve isso aí, esse é o meu recado pra mulher preta brasileira. Na boa.

Lélia
(off)
Você quer saber, a cultura negra não é só o samba, o pagode e o funk. Ela está é no “pretuguês” que falamos. Transformou a língua e toda a nossa cultura. Sou Lélia Almeida González. Sou uma cidadã negra brasileira.

CENA 3

Sueli Carneiro
“ O negro tem que ter nome e sobrenome”, disse Lélia Almeida González. E eu digo: sou SUELI CARNEIRO. Sou uma cidadã negra brasileira.

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