Jos茅 (Benedito) Correia Leite (1900-1989)
por Haroldo Costa




JOSÉ CORREIA LEITE


CENA 1

Leite
Os negros construíram o Brasil. Digo isso no sentido figurado e no explícito. Foram os braços negros que cultivaram as plantações e ergueram as cidades. No entanto, durante anos, tentaram varrer nossa participação na história. Pior: tentaram desfazer nossa identidade.

CENA 2

Foto de uma casa de pau-a-pique, em São Paulo, no início do século XX. De preferência no Bexiga. Ou de uma rua no Bexiga na mesma época

Leite
(off)
Eu mesmo demorei a encontrar minha identidade. Nasci no último ano do século XIX, em São Paulo. Desde cedo, aprendi a me virar sozinho. Nunca consegui entrar pra escola. Aprendi a ler e a escrever já crescido, com a ajuda de amigos.

Leite
(off)
Sem poder estudar, trabalhei. Fui lenheiro e cocheiro pra uns italianos. Nos primeiros anos da minha vida, vivi no meio de uma gente que não era a minha.

Leite
(off)
Até que conheci as sociedades negras. Foi nelas que eu me encontrei comigo mesmo. Eram todos negros, como eu. Com as mesmas dificuldades e necessidades. Era um momento de efervescência do jornalismo negro. Várias sociedades tinham seus jornais.

Leite
(off)
Criamos o “O Clarim”, depois “ Clarim d’Alvorada”, que saiu pela primeira vez em 1924. Era um jornal feito por negros para negros, que tratava especificamente da nossa comunidade.

Leite
(off)
Foi nessa época que percebemos que a questão negra não era só brasileira e vimos que o movimento negro era forte também nos Estados Unidos. A luta do negro americano contra o racismo não era muito diferente da nossa. O movimento negro é um só.

Leite
(off)
No início dos anos 30, foi criada a Frente Negra. Era para ser uma associação que lutasse pela promoção e reivindicações dos negros. Mas logo ela se aproximou perigosamente do fascismo, e eu me afastei. Fiz parte de muitas outras associações e fui um dos mais ativos nomes do movimento negro brasileiro. Me chamo José Correia Leite. Sou um cidadão negro brasileiro.

CENA 3

Haroldo Costa
“O negro é um. Ele tem que ser indivisível. Ele tem que ter uma bandeira, que é a bandeira da luta dele”, disse José Correia Leite. Sou HAROLDO COSTA. Sou um cidadão negro brasileiro.

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