Jackson do Pandeiro (1919-1982)
por Fl谩vio Bauraqui




JACKSON DO PANDEIRO


CENA 1

Jackson
O Brasil tem uma mania: o que é do Sul é nacional; O que é do Norte é regional. Deixa só eu explicar que pra quem é paraibano, como eu, o Sudeste é Sul e o Nordeste é Norte. Esse negócio de dar nome aos bois é mesmo uma confusão. Eu, por exemplo, nasci José Gomes Filho, mas ninguém nunca me conheceu por esse nome.

CENA 2

Jackson
(off)
Quer saber de uma coisa? Cresci cantando e tocando com a minha mãe, que era cantadeira de coco. Eu tocava zabumba, mas era bom mesmo no pandeiro.

Jackson
(off)
Quando perdi minha mãe, fui parar em Campina Grande. Trabalhava numa padaria e não gostava disso não. Gostava mesmo era de música. Quando ouvi pela primeira vez “Ó jardineira, por que estás...”, disse pra mim mesmo: não trabalho mais na padaria não.

Jackson
(off)
E piquei a mula e fui parara no Recife. Lá fui trabalhar na rádio e gravei “Sebastiana”. Fez sucesso. Assim como muitas outras músicas minhas. Quando me dei conta, o pessoal lá do Sul já falava no meu nome. Peguei a minha mulher Almira, que fazia dupla comigo, e fui pro Rio de Janeiro.

Jackson
(off)
Foi um sucesso maior ainda. Era como se aquela rapaziada do Sul estivesse descobrindo os sons nordestinos pela primeira vez. Virei até ator de cinema.

Jackson
(off)
E aí eu comecei a misturar tudo. Xote, coco, xaxado, forró e samba. Foi uma embolada só.

Jackson
(off)
Como tudo mundo nessa vida, conheci o sucesso e, depois, um tempo de poucos ventos. O gosto musical do público foi mudando e eu fui ficando de lado, mas voltei pros holofotes com o pessoal do Tropicalismo. O fato é que, por ter feito tudo o que eu fiz, a música nordestina passou a ser nacional também. Sou Jackson do Pandeiro. Sou um cidadão negro brasileiro.

CENA 3

Flávio Bauraqui
“Quero ver o Tio Sam de frigideira numa batucada brasileira”, disse Jackson do Pandeiro. Sou FLÁVIO BAURAQUI. Sou um cidadão negro brasileiro.

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