Elizeth Cardoso (1920鈥1990)
por Zez茅 Motta




ELIZETH CARDOSO


CENA 1

Elizeth
Sabe, meu filho, se alguém nasce com um dom divino, ou simplesmente enluarada, tem de aproveitar. Às vezes eu acho que nasci sabendo cantar. Antes dos seis anos de idade, subi no palco pela primeira vez na Kananga do Japão, um clube muito famoso de antigamente. Quem diria que um dia estaria aqui, no palco do Teatro Municipal.

CENA 2

Elizeth
(off)
Desde que eu nasci, no Rio de Janeiro, em 1920, minha vida sempre foi cercada de música. Meu pai era seresteiro e minha mãe adorava cantar. Mas a vida não era só festa. Era dureza também. Falta de dinheiro e tal. Comecei a trabalhar com dez anos. Fiz de tudo um pouco, vendedora de cigarros, operária de fábrica de sabão, costureira de uma peleteria, cabeleireira. É, minha filha, vida de pobre não é fácil.

Elizeth
(off)
Vida de artista, muito menos. Fui levada para o rádio por um amigo músico que se encantou com a minha voz. Mas isso, na época, não era garantia de nada. Cantei muito em circo, em palco de caixote de bacalhau, trabalhei num dancing, como dançarina e cantora até fazer sucesso realmente.

Elizeth
(off)
Os discos vieram um atrás do outro. Foram mais de 40 e tal. Entre eles, alguns que entraram para a história da música brasileira, como “Canção do Amor Demais”, que foi o início da parceria do Tom Jobim com o Vinícius de Morais e o marco inaugural da Bossa-Nova.

Elizeth
(off)
Já era famosa em 1964, mas tão famosa, meu filho, que me levaram para cantar a “Bachiana nº 5”, de Vila-Lobos no Municipal do Rio e de São Paulo. Uma experiência que cantora nenhuma pode esquecer. Primeiro pela ovação que recebi do público. Segundo, pelas críticas injustas dos que disseram que uma negra semi-analfabeta, como eu, não podia se atrever a cantar clássicos. Um consolo foram as palavras do Vinícius: “Elizeth encheu o palco de passarinhos e luar”. Bonito, né?

Elizeth
(off)
Em mais de cinqüenta anos de carreira, fui coberta de todas as glórias que uma cantora pode ter, criei meus filhos com amor e ajudei a criar meus netos com orgulho. Me chamo Elizeth Cardoso, sou uma cidadã negra brasileira.

CENA 3

Zezé Motta
“ Tudo que eu tenho, graças a Deus, ganhei com muita luta. Foi tudo presente da minha voz”, disse Elizeth Cardoso. E eu digo: sou ZEZÉ MOTTA. Sou uma cidadã negra brasileira.

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