Dona Zica (1913-2003)
Por Mariene de Castro



CENA 1 – INT - MONTAGEM SOBRE FOTO

CARTOLA
É minha preta! No imenso moinho do mundo, nunca fui moleiro. Fui pá, que, ao sabor dos ventos, passou pelos os altos e baixos dessa vida.
CENA 2 – INT - MIX DE FOTOS DE ARQUIVO

CARTOLA
(V.O.)
Nasci numa família de classe média, para os padrões de 1908. Passei uma infância sem sustos no Catete e em Laranjeiras, dois bairros na Zona Sul do Rio de Janeiro, até que os ventos mudaram com a morte do meu avô.

CARTOLA
(V.O.)
Sem dinheiro, meus pais levaram a filharada pro Morro da Mangueira. Eu, que ainda era menino, conheci um outro mundo, que seria meu para sempre.

CARTOLA
(V.O.)
Lá, vi gente abraçando um inimigo como se fosse um irmão. Também descobri a malandragem. O Carnaval, eu já adorava desde os tempos dos ranchos do Catete, mas, a batucada, eu conheci na Mangueira.
CARTOLA
(V.O.)
A vida boêmia me afastou de meu pai. Quando minha mãe morreu, ele foi embora da Mangueira, mas eu fiquei. Desgarrado no mundo, eu caí na farra de vez, o que me custou muitos problemas de saúde.


CARTOLA
(V.O.)
Mas a pá que tá embaixo, uma hora vai pro alto. Uma brisa suave me levou para os braços de Deolinda, minha primeira companheira, que me deu carinho, abrigo e amor.

CARTOLA
(V.O.)
Junto com meus amigos, fundei a Estação Primeira de Mangueira. Comecei a vender meus sambas, mas o dinheiro não dava pra nada. Tinha fama de gênio, minha música era elogiada, mas eu ganhava a vida mesmo como pedreiro e tudo quanto é bico que aparecesse. Até que um vendaval me derrubou outra vez.

CENA 3 – INT - MONTAGEM SOBRE FOTO

CARTOLA
O coração de Deolinda parou e despedaçou o meu. Fui pro fundo do poço. Nem de violão, nem de Mangueira eu queria saber mais. Até que meu coração começou a bater com esperança outra vez.

ZICA
Calma, meu nego. Não adianta a história.

CARTOLA
Mas foi o amor dessa mulher que me levou de volta pra Mangueira, me botou na linha.

CENA 4 – INT - MIX DE FOTOS DE ARQUIVO

ZICA
(V.O.)
Teve um tempo que ele lavava carros em Ipanema. Muita gente que gostava dos seus sambas o julgava morto. Até que um jornalista o encontrou. Saiu no jornal, e aí todo mundo voltou a se interessar pelas músicas dele.

ZICA
(V.O.)
Depois nós criamos uma das primeiras casas de samba do Rio, o ZICARTOLA. O talento dele era a música; o meu a culinária. Na administração, nenhum de nós era grande coisa. O negócio fechou. Ficamos cheios de dívidas, mas a cultura brasileira enricou.

CARTOLA
(V.O.)
Mas o moinho sempre gira. Veio a reconciliação com o meu pai. E, no inverno do meu tempo, gravei meu primeiro disco. Aí vieram os shows, o reconhecimento, e mais discos.

ZICA
(V.O.)
No redemoinho da vida, nós nos amamos. Eu sou Euzébia, a Zica. Sou uma cidadã negra brasileira.

CARTOLA
(V.O.)
Do redemoinho da vida, nós nos salvamos. Eu sou Angenor, o Cartola. Sou um cidadão negro brasileiro.

CENA 5 – INT - MONTAGEM SOBRE FOTO

ATRIZ DE ZICA
“Para preparar uma receita, o primeiro ingrediente é o amor”, disse Dona Zica. E eu digo: sou Mariene de Castro

ATOR DE CARTOLA
“Vem. Tudo é belo por onde eu passei. Será onde eu passar. Vem”, disse Cartola. E eu digo: Sou Gabriel Moura.

ATOR DE CARTOLA E ZICA
Somos cidadãos negros brasileiros.

 

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