Cruz e Souza (1861-1898)
por Maur铆cio Gon莽alves



CRUZ E SOUZA

CENA 1

Cruz e Souza
(declamando)
Na casa grande tudo é deserto/
No porão escuro a vida se completa/
Vem ao mundo um negro liberto/
O futuro confirmará, ele será poeta/
(normal)
Perdão pelas rimas. Vício do ofício. Hum, de novo. Vou passar do verso à prosa para melhor descrever o que foi minha curta vida.

CENA 2

Cruz e Souza
(off)
Nasci no porão de uma grande casa de família em Desterro, que hoje é Florianópolis. Aprendi vários idiomas e tive a chance de estudar nos melhores colégios do meu tempo.

Cruz e Souza
(off)
Mas as artes eram o que mais me atraíam. E não falo só da poesia. Falo também do teatro. Excursionei o Brasil inteiro numa companhia. Não como ator, mas como ponto. Eu dava cola quando os atores não sabiam o texto. Aproveitei as turnês para participar de várias manifestações pela abolição.

Cruz e Souza
(off)
Surgiu a oportunidade de me mudar para o Rio. Com emprego garantido, nada demais, arquivista da Central do Brasil, pude entrar no universo que sempre admirei: o mundo das letras. Colaborei com vários jornais e comecei a preparar meu primeiro livro de poesias.

Cruz e Souza
(off)
Em vida, publiquei apenas dois. Um deles, “ Missal”, escrito em prosa, como o fez o francês Charles Baudelaire. Outros vieram depois da minha morte, aos 36 anos. Assim como o reconhecimento da crítica. Demorou, mas descobriram que eu era o maior expoente do simbolismo brasileiro, uma escola que abriu os caminhos para o modernismo e a Semana de 22.

Cruz e Souza
(off)
Posso não ter tido tempo para realizar tudo o que eu queria em vida, mas me tornei o maior símbolo de uma escola literária que valoriza o espírito sobre a matéria. Meu nome é Cruz e Souza. Sou um cidadão negro brasileiro.

CENA 3

Maurício Gonçalves
“Mas, embora, meus senhores
se festeje a Liberdade,
a gentil Fraternidade
não raiou de todo, não ”, disse Cruz e Souza. Sou MAURÍCIO GONÇALVES. Sou um cidadão negro brasileiro.

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