Chiquinha Gonzaga (1847-1935)
por Il茅a Ferraz




CHIQUINHA GONZAGA

CENA 1

Chiquinha
Se eu tiver de escolher entre a família e a música, fico com a música. Se eu tiver de escolher entre um marido e a música, fico com a música. Se eu tiver de escolher entre aceitação social e a música, fico com a música. Se eu tiver de escolher entre qualquer coisa e a música, não haverá nem um segundo de hesitação, fico, sempre, com a música.

CENA 2

Chiquinha
(off)
Tive a educação fina das moças de boa família da segunda metade do século XIX. Embora sem muitas posses, minha família gozava de certo prestígio, era aparentada do Duque de Caxias. Por isso, tive aulas de tudo um pouco, mas o que eu gostava mesmo era das lições de piano.

Chiquinha
(off)
Casei novinha, novinha. Dezesseis aninhos. Meu marido não se conformava com meu amor ao piano. Um dia ele disse: “ou ele ou eu”. Fiquei com a música, é claro.

Chiquinha
(off)
Será que alguém consegue imaginar o que é ser uma mulher de boa família separada do marido no século XIX? Foi o caos. Fui rejeitada até pela minha família.
Cartazes de espetáculos de teatro de revista no fim do século XIX, início do XX.

Chiquinha
(off)
Mas tinha o piano. Comecei a dar aulas em casa e a compor para o Teatro de Revista. Me especializei nos choros. Além de compor, também era a regente. Uma mulher regente?! Mais um escândalo.

Chiquinha
(off)
O dinheiro me ajudava a pagar as contas e o que sobrava ajudava na compra da alforria de escravos. Isso antes da Abolição.

Chiquinha
(off)
Com o tempo, fui ganhando respeito. Compus “ Ó, abre alas”, a primeira marchinha de Carnaval da história. E meu “Corta-Jaca”, de tão famoso, acabou tocado, para espanto geral, pela primeira-dama, numa recepção no Catete. Mais um escândalo! Lutei como poucos da minha geração pela defesa dos direitos autorais dos músicos e fui uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, a Sbat, que até hoje existe. Sou Chiquinha Gonzaga. Sou uma cidadã negra brasileira.

CENA 3

Iléa Ferraz
“ Eu não entendo a vida sem harmonia”, disse Chiquinha Gonzaga. E eu digo: sou ILÉA FERRAS. Sou uma cidadã negra brasileira.

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