Carolina Maria de Jesus (1914-1977)
por Ruth de Souza




CAROLINA MARIA DE JESUS

CENA 1

Carolina
Uma palavra escrita não pode nunca ser apagada. Por mais que o desenho tenha sido feito a lápis e que seja de boa qualidade a borracha, o papel vai sempre guardar o relevo das letras escritas. Não, senhor, ninguém pode apagar as palavras que eu escrevi.

CENA 2

Carolina
(off)
Só passei dois anos dentro de uma escola. Isso foi lá em Minas, onde eu nasci. Foi pouco tempo, mas o suficiente pra eu descobrir que as palavras, se não conseguem mudar o mundo, servem pelo menos para contá-lo ou até inventar um mundo novo.

Carolina
(off)
A gente sempre corre da miséria e corri de uma cidade pra outra até chegar em São Paulo. O problema é que não é fácil despistar a danada, e a miséria me achou aqui também.

Carolina
(off)
Houve um tempo em que lugar de negro era na senzala. Hoje, trancam a gente na favela. No Canindé, como em qualquer outra, as bocas estão sempre famintas.

Carolina
(off)
Alimentei, eduquei e amei meus três filhos. Catei papel, revirei lixo. Do papel também tirei meu alimento: a escrita.

Carolina
(off)
Nem todo o papel eu vendia. Guardava um tanto para ter onde escrever. Foram neles que nasceu “Quarto de despejo”.

Carolina
(off)
Foi assim que uma favelada como eu se tornou uma escritora brasileira traduzida em 13 línguas.

Carolina
(off)
Fiz sucesso, ganhei um pouco de dinheiro, escrevi outros livros... Assim como as palavras, as pessoas que as escrevem não podem ser apagadas. Sou Carolina Maria de Jesus. Sou uma cidadã negra brasileira.

CENA 3

Foto de Carolina ajeitando o lenço de Ruth de Souza. RUTH DE SOUZA atual entra em quadro e se coloca sobre a imagem da Ruth jovem.

Ruth de Souza
“O Brasil precisa ser dirigido por alguém que já passou fome”, disse Carolina Maria de Jesus. E eu digo: sou RUTH DE SOUZA. Sou uma cidadã negra brasileira.

Informa莽玫es Relacionadas