Bispo do Ros谩rio (1909/11?-1989)
Por Wilson Rabelo



CENA 1 – INT - MONTAGEM SOBRE FOTO

BISPO
Os doentes mentais são como beija-flores: sempre a dois metros do chão. Os artistas também. O que os diferencia, não sei. Só sei que, mas por uma razão ou por outra, sou um beija-flor.

CENA 2 – INT - MIX DE FOTOS DE ARQUIVO

BISPO
(V.O.)
Desde menino eu me afastei da terra. Ainda não voava, mas navegava a muitos metros do chão, como marinheiro. De porto em porto, rodei o mundo. Depois, tentei a vida em terra firme no Rio, até que me tornei um beija-flor, diagnosticado como esquizofrênico paranoico.

BISPO
(V.O.)
Fui levado para o Hospício da Praia Vermelha em 1938 e, em 1939, para a Colônia Juliano Moreira, também um manicômio. Foram nesses ambientes, entre o delírio da loucura e o delírio da criação, que construí o meu mundo, feito de bordados, colagens e esculturas, que assombraram os críticos de arte.

BISPO
(V.O.)
Para bordar, eu desfiava os uniformes azuis dos internos e usava os cobertores e casacos como tela. Nas esculturas e colagens, usava tudo quanto é tipo de sucata e descarte que caia em minhas mãos. Ao longo de 50 anos de internação, construí um inventário da memória - da minha Japaratuba natal, à vida no manicômio.
BISPO
(V.O.)
Minhas obras ganharam o mundo, em exposições nas mais consagradas galerias e bienais. Fui catalogado como louco. Fui catalogado como artista genial. Mas tudo o que eu fiz foi obedecer às vozes que eu ouvia. A voz do criador, a voz da criatura, a voz da criação. Sou Arthur Bispo do Rosário. Sou um cidadão negro brasileiro.

CENA 3 – INT - MONTAGEM SOBRE FOTO

ATOR DE BISPO
“Qual é a cor do meu semblante?”, perguntava Arthur Bispo do Rosário aos visitantes de seu atelier. Sou Wilson Rabelo. Sou cidadão negro brasileiro.

 

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