Auta de Souza (1876鈥1901)
por Ta铆s Ara煤jo

 



AUTA DE SOUZA

CENA 1

Auta
Vivi num tempo em que praticamente não havia mulher escritora. Ter até tinha, mas elas eram completamente ignoradas pela crítica. “Literatura é coisa de homem”, diziam os gênios oitocentistas. Eu fui uma exceção. Embora tenha morrido antes mesmo de completar 25 anos de idade, tive meus poemas reconhecidos pelos mais notáveis escritores do país.

CENA 2

Auta
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Como se não bastasse a raridade do feito, há outro fato digno de nota. Nunca vivi no Rio ou em São Paulo. Sou uma mulher do interior. Nasci em Macaíba, em 1876. Macaíba pode não ser uma referência para quem não é potiguar, mas garanto, minha cidade era o mais importante centro econômico e político do Rio Grande no Norte na época.

Auta
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Estudei em colégio católico no Recife. O mesmo colégio que educava as mais finas moças da cidade. Mas não fiquei por lá muito tempo. Depois de três anos de estudos, tive de voltar para casa depois de ser diagnosticada com tuberculose.

Auta
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Eram tempos em que não havia band-aid, muito menos antibióticos. Por isso, a tuberculose era quase uma sentença de morte.
Reproduções de livros e mais livros em edições do século XIX.

Auta
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Mas não para mim, que queria me fazer poeta. Apesar das crises constantes, segui estudando por conta própria e lendo tudo o que me caía nas mãos.

Auta
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Em pouco tempo, venci a resistência dos círculos literários masculinos. Passei a participar deles e a contribuir com vários jornais e revistas, além de permitir que alguns de meus poemas fossem musicados por compositores populares.

Auta
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Meu primeiro e único livro publicado em vida, “Horto”, mereceu até prefácio do mais consagrado poeta brasileiro da época, Olavo Bilac. Mesmo eu tendo morrido em 1901, este livro continua sendo publicado e estudado até hoje. Sou Auta de Souza. Sou uma cidadã negra brasileira.

CENA 3

Taís Araújo
“Desce, meu Pai, a noite baixou mansa/Nem uma nuvem se vê mais no céu:/Aninham-se aqui no peito meu,/Onde, chorando, a negra dor descansa”, disse Auta de Souza. E eu digo: sou TAÍS ARAÚJO. Sou uma cidadã negra brasileira.

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