Ana das Carrancas (1923-2008)
Por L茅a Garcia



CENA 1 – INT - montagem sobre foto

ANA
Dizem que Deus fez do barro o primeiro ser humano. Não sou Deus, mas eu também fiz do barro a minha vida.

CENA 2 – Int - Mix de fotos de arquivo

ANNA
(V.O.)
Comecei a moldar o barro ainda no interior de Pernambuco, onde nasci, em 1923. Foi minha mãe que me ensinou. Com ela, desde cedo, aprendi a fazer potes, tigelas e jarros de barro para vender na feira.

ANA
(V.O.)
De feira em feira, cresci, casei, tive filhos e enviuvei. E conheci um grande amor, José Vicente, que era deficiente visual e ganhava a vida cantando nas feiras. Sabe qual era o sobrenome dele? Barros. Parecia até um sinal de Deus.

ANA
(V.O.)
Um dia, decidimos levar nossa família para Petrolina, onde a feira era maior e podíamos conseguir mais dinheiro com o artesanato e a musica. Mas, nos anos 60, enfrentamos dias difíceis, com a escassez de barro na região.

ANA
(V.O.)
Mas é na adversidade que surgem as inspirações divinas. Um dia, na beira do Velho Chico, cavei bem fundo e achei barro de todas as cores. Olhei pros barcos que subiam e desciam o rio e logo logo soube o que fazer: carrancas.

ANA
(V.O.)
De artesanato de feira, minhas obras se tornaram arte e ganharam os espaços nobres em galerias do Brasil, da Europa e até dos Estados Unidos. Um detalhe, dei às minhas carrancas os olhos cegos de meu companheiro de vida. Meu nome é Ana das Carrancas. Sou uma cidadã negra brasileira.

CENA 3 – INT - MONTAGEM SOBRE FOTO


ATRIZ DE ANA
“Onde encontrarem o caco de uma orelha de barro, Ana passou por ali e deixou saudades”, disse Ana das Carrancas. E eu digo: Sou Lea Garcia, atriz. Sou uma cidadã negra brasileira.


 

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